segunda-feira, junho 27, 2005

Um futuro incerto

A teoria das vantagens comparativas de Ricardo tem servido para algumas vozes defenderem os processos de “offshoring”(exportação de empregos no sector dos serviços) decorrentes da globalização como sendo um processo vantajoso para todos os lados envolvidos, tanto o país que importa emprego como aquele que exporta.

Ao argumento de que, na Europa, em última análise, os beneficiários principais do “offshoring”, mais que os consumidores, serão as grandes empresas, já que uma parte dos trabalhadores ficam sem emprego e acabam por isso por não retirar vantagens da diminuição dos preços, respondem os apologistas da globalização com o argumento de que a quantidade de emprego não é limitada, ou seja, apesar de exportarem emprego as economias mais desenvolvidas podem continuar a criar novos postos de trabalho.

Primeiro foi a deslocação das indústrias de manufacturarão e agora são os serviços; a resposta dos gurus da globalização é que o investimento em tecnologia continuará a tornar-nos mais “produtivos” e criará novos empregos. É duvidoso que assim seja, o mais provável é a globalização começar a gerar uma classe de excluídos no mundo ocidental, os tais que não tendo preparação técnica para trabalhar com as novas tecnologias acabarão por ficar desprotegidos face à competição global sem restrições, a juntar a isso é também provável que entre os empregos mais qualificados se possa começar a assistir ao mesmo processo de fuga maciça de trabalho para países que, tendo custos salariais baixos, começam a ter, no entanto, técnicos com formação especializada( ver o caso da índia, Malásia ou China).

Quando pomos em análise as vantagens concorrenciais que apresentam alguns países emergentes vemos que essas vantagens não advêm só do baixo custo do trabalho, no caso da Índia, por exemplo, existe uma isenção fiscal de 10 anos para atrair o investimento estrangeiro, os custos com a protecção social são também muito inferiores aos do ocidente e a verdade é que a maioria dos ocidentais não aceitaria os esquemas de protecção social que vigoram nesses países. A única forma verdadeiramente coerente de apregoar o comércio totalmente livre seria defender a renúncia às conquistas sociais do mundo ocidental, nivelando as economias. Se assim fosse, renunciando aos direitos laborais e esquemas de protecção social relativamente abrangentes da Europa ou mesmo da América do Norte, quando comparados com os dos países que estão a atrair estes novos empregos, e tendo em atenção que estes países são mais populosos que os países ocidentais, o eventual ganho total para o comércio mundial traduzir-se-ia por perdas do mundo ocidental para os outros blocos.

Naturalmente esta análise nem leva em conta o facto de que esta exportação de serviços deixa no desemprego pessoas que não mais conseguirão reentrar no mundo do trabalho, os dados mostram que o desemprego de longa duração a partir de determinada faixa etária é uma realidade incontornável, por mais cursos de formação e requalificação por que passem os indivíduos. Estas pessoas, neste contexto, não perdem os empregos por serem “preguiçosas” ou incompetentes, perdem-nos por existirem no outro lado do planeta custos mais baixos para as empresas, situações a que os trabalhadores ocidentais são alheios e que não dependem da sua capacidade ou vontade para trabalhar.

Comecei por falar em Ricardo e na teoria das vantagens comparativas e acabarei falando do mesmo, a conclusão da teoria de Ricardo do comércio livre resultaria na tendência de queda do preço do trabalho, se o fenómeno de “offshoring” assumir, a médio/longo prazo, proporções consideráveis no ocidente( e nesse caso o grande afectado será primeiramente os EUA), como alguns economistas prevêem, o impacto nos salários poderá ser enorme, levando a que a teoria de Ricardo de aumento global do rendimento pelo comércio livre não tenha repercussões reais nos trabalhadores e consumidores da Europa ou América, ou seja, esse aumento de rendimento, a acontecer, passaria pelas grandes multinacionais e pelos accionistas e não pelos trabalhadores e consumidores, seria portanto um aumento de rendimento que seria sobretudo absorvido pelo capital.

Marx previa o colapso do capitalismo quando os trabalhadores, prejudicados pelo mercado, deixassem de aceitar o sistema. O processo de globalização pode muito bem estar a criar as condições para reavivar o marxismo na Europa(nos EUA não existe uma tradição socialista implantada), por um lado a imigração maciça decorrente cria uma nova bolsa de eleitores facilmente manipuláveis por esses movimentos neo-marxistas, por outro lado, se a globalização económica aprofundar os fenómenos de deslocação de emprego para fora das economias ocidentais, provocando uma baixa acentuada nos salários, pode estar a criar uma nova classe de excluídos com tendência a refugiar-se na argumentação paternalista e anti-capitalista da extrema-esquerda. É bom recordar que o texto da recentemente referendada constituição europeia rejeitava a protecção comercial das economias europeias e defendia a intensificação do comércio livre( artigo III-314).A esta globalização, por questões de salvaguarda da nossa identidade, da nossa liberdade e do nosso futuro, será necessário contrapor um novo paradigma.

15 Comentários:

Blogger alex disse...

Aquilo que vejo não é lá muito animador.

O petróleo, no qual se baseiam práticamente todos os artigos e que nos rodeiam (para não falar dos combustíveis) nãão pára de aumentar de preço pois a produção já não pode acompanhar a procura.
Estamos no PP (Pico de Produção Petrolífera) e, nos ganinetes das grandes petrolíferas a nas bolsas já há dados que antevêm o princípio do que se chama o 'ciclo de penúria' petrolífera.
Os recursos como o petróleo são FINITOS e o planeta já foi vasculhado de alto e baixo.
As reservas ainda por explorar não serão suficientes para aguentar a situação muito mais tempo.
As reservas planetárias estão a ser 'chupadas' no limite.
Agora será só 'pra baixo, p'ra baixo....
De acordo com vários dados, e tendo em conta o verificado no passado, algures entre 2015 e 2030 estaremos já em grande carência petrolífera, tudo acompanhado de um gradual (mas acentuado) aumento de tudo o que é obtido a partir do petróleo.
E não é pouca coisa: é quase tudo, hoje em dia.

A juntar a tudo o que o Rebatet disse, teremos que acrescentar estes factos inevitáveis que provocarão uma crise de reconversão (chamesmo-lhe assim) brutal. Até porque as energias renováveis e alternativas conhecidas não conseguirão substituir o petróleo, até porque não há nenhum recurso tão polivalente como o petróleo.

Não será o fim do capitalismo e o dealbar de uma era marxista, nada disso.
Mas vamos atravessar uma época de grande turbolência e de profundas tansformações.
E vamos ter de viver com isto tudo.

Enfim, como diria Camões:

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades."

Quem não reconhecer isto é melhor começar a rever as suas ideias...para não ter grandes dissabores.


NOTRA: a Suécia,a Finlândia e a Dinamarca reduziram o peso do Estado 10% nos últimos 10 anos.
Cá é o que se vê.
Para se manter o 'Estado Social' é preciso ser selectivo, como estes países demonstram.
Subsídios só para quem precisa, atribuidos com critérios transparentes...e não a tremenda pouca-vergonha-sustenta-todos-e-sustenta-os-preguiçosos-e-os-indigentes-profissionais que por cá se passa,.
Os demagogos lusos do costume estão a hipotecar o Estado Social a médio prazo, já nem é no longo prazo.

Enfim, uma merda.

12:27 da manhã  
Blogger Suevo disse...

Eu ao contrario do Buiça não acho que o problema seja o petroleo, serão facilmente encontradas alternaticas a esse combustivel. Em 1980 tambem ja diziam que o petroleo ia acabar em 2010.

1:38 da manhã  
Blogger alex disse...

" Em 1980 tambem ja diziam que o petroleo ia acabar em 2010."

Ó JAPMG...mas na altura isso era propaganda comunista/verdes-melancias (verdes por fora, vermelhos por dentro) para desestabilizar.

E, que diabo, algum dia teria que acabar.

Quanto á alternativa...bem, não é assim tão simples.
Arranjar maneira de por os carros a funcionar será o mais simples...o pior vai ser arranjar alternativa para todas as outras aplicações para as quais é necessário petróleo, como por exemplo: todos os plásticos.

Pois é.Os polímeros são fodidos.

3:30 da manhã  
Blogger Humano Ignorante disse...

Ainda não tive tempo de avaliar este blog por completo! Me parece, por final, ter encontrado o blog e as pessoas evoluídas que estive à procura..ainda há esperança, Portugal não tem somente cabeças ocas a propagandear a DEFESA DA NAÇÃO!

5:04 da manhã  
Blogger miazuria disse...

Texto revelador de optimos conhecimentos de economia.

Meu caro Nelson: a Suecia, Dinamarca e Finlandia somente racinalizaram as despesas e encargos do Estado, sem beliscar a nocao do bem-estar social (ainda bem).

Compare os salarios auferidos pelos nossos quadros elevados nas empresas publicas e privadas com e os auferidos pelos nordicos, levando em conta, como e obvio, o nivel de vida das sociedades em questao.
Logo vera uma das razoes do "despesismo" portugues e a gritante, vergonhosa, disparidade social existente em Portugal, bem revelador de uma sociedade fragmentada, (des)comunitarizada,com um errado e falso entendimento de elite.

Qualquer organismo social que abandone a vivencia comunitaria esta, de antemao, condenado a extincao e a entropia.

Para terminar: a ecologia e o ambiente sao dados incontornaveis e decisivos para a leitura e compreensao do futuro.
Neste campo
mais uma vez devemos aprender com as sociedades nordicas e nao enveredar pelo tolo "novo-riquismo", bem tipico das sociedades incultas e desfuncionais.

Saudacoes

7:53 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Enfim, além de ignorante é cabeçudo.

9:52 da manhã  
Blogger social-patriota disse...

Já sei que isto não agrada ao sr.Buiça,mas o capitalismo já entrou em colapso, agora falta é uma alternativa mobilizadora.

12:12 da manhã  
Blogger alex disse...

"...mas o capitalismo já entrou em colapso..."

Não seja tão dramático.
Simplesmente: transforma-se.

Mas, todo o sistema económico baseado na iniciativa e propriedade privada é, quer se goste ou não, .....capitalismo.
Até a social-democracia nórdica é uma forma de capitalismo.
Moderado...mas capitalismo.


"...uma alternativa mobilizadora..."

Coisa bem mais fácil de escrever do que fazer, ou seuqer conseguir alinhavar.

12:42 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

«todo o sistema económico baseado na iniciativa e propriedade privada é, quer se goste ou não, .....capitalismo.»

Então o Buiça quer-nos convencer que o capitalismo existiu sempre, desde o inicio da humanidade, e que não surgiu como consequencia da revolução industrial?

NC

11:41 da tarde  
Blogger miazuria disse...

Meu caro Nelson:

O entendimento do "capitalismo" exige uma previa grelha de interpretacao do mesmo, a partir de
realidades culturais, socio-economicas e historicas de onde aquele foi construido.

Nao se esqueca, que inclusive a Uniao Sovitica era criticada como a expressao de um "capitalismo" de estado, monopolista, centralizador, etc
E interessante que voce continue a utilizar a fraseologia "marxista," ou dos classicos liberais, para caracterizar e definir o capitalismo.Ora, essa terminogia esta ha muito datada e ultrapassada. De uma vista de olhos pelos livros de Peter Drucker.

Os paises nordicos ultrapassaram, felizmente, o abc do "capitalismo" liberal, selvagem, desprovido de etica e de valores de referencia.

Prefiro falar de economia social e distributiva, quando abordo as economias dos paises nordicos, que nada tem a ver com os sistemas "mafiosos", corruptos, especuladores, predominantes no actual e selvatico capitalismo financeiro internacional.
Saudacoes


"anonimamente se vai grunhindo, enquanto a banda, alegremente, vai passando cantando e rindo"!

6:20 da tarde  
Anonymous Sebastian disse...

Que eu saiba, há já uma alternativa ao petróleo fóssil, que é o petróleo sintético, fabricado há mais de 60 anos na Alemanha nazi, segundo o processo denominado de Fischer-Tropsch. Este consiste em tratar resíduos orgânicos (vulgo lixo) e carvão de modo a obter gasolina, gasóleo, parafinas e óleos lubrificantes.
O processo funcionou muito bem, até que os aliados bombardearam as principais refinarias que produziam o petróleo sintético (para além de refinarem o crude), em Ploesti, na Roménia, três dias... após o armistício!
É um processo um pouco mais caro do que a extracção pura e simples do crude (especialmente se for roubado aos países produtores), mas caramba, é eficiente e minora o problema do lixo urbano (os plásticos também podem ser assim reciclados).

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